Conviver com quem tem o diagnóstico de depressão é uma montanha-russa



Ao se falar de depressão, a primeira imagem que vem na cabeça da maioria das pessoas é a de alguém sem força para sair da cama, com pouca coragem para manter a higiene e sempre aos prantos, não importa o momento do dia. Embora isso seja, sim, sintomas depressivos, está longe de ser o modo mais comum entre os que sofrem do transtorno mental. Em geral, as pessoas conseguem manter uma rotina satisfatória, mesmo quando abandonam um tratamento por algum tempo, rindo, se divertindo, indo a festas e ao trabalho, o que parece dificultar a compreensão das pessoas a volta sobre tal fenômeno.

A verdade é que ter depressão é muito mais do que gabaritar os itens de sintomas disponíveis no Manual Diagnóstico Estatístico (o DSM, da psiquiatria) e até do CID (o código utilizado por médicos para dar encaminhamento nos planos de saúde). Você pode ter todos os sintomas e não ter depressão, do mesmo jeito que pode ter alguns e conviver com a depressão – essa é a beleza e a crueldade dos transtornos mentais, que têm mais a ver com a vivência e significação que a pessoa dá aos sintomas do que com o check-list feito para facilitar a identificação pelo profissional.

Assim, apesar da imagem mais vendida ser de uma pessoa que está sempre chorando, um paciente depressivo raramente chora – em algum momento, para a maioria, as coisas param de afetar e doer e, sem sentir nada, fica difícil externar em lágrimas o sentimento incompreensível. Esse é, inclusive, o momento mais perigoso e crucial da sintomatologia: quando a pessoa para de se importar com coisas que antes lhe causavam algo é quando as pessoas ao redor precisam estar atentas, porque é nessa hora que ela vai tentar tudo o que for possível para voltar a sentir qualquer coisa – e os comportamentos autodestrutivos, que vão desde a frequentar todas as festas possíveis, beber sem limite e até se envolver em relações abusivas começam a ser extremamente comuns, tudo como uma tentativa para voltar a se sentir vivo por uns míseros segundos.

É um paradoxo, na verdade: alguém com depressão vai de não sentir nada a ser sensível a tudo, porque nada parece bastar ou ser o suficiente para tirar a pessoa de um lugar escuro, apertado e sem saída. Por isso é importante que as pessoas ao redor tenham o cuidado de não duvidar quando aquele amigo que sempre topa uma festa confessa estar lutando contra a depressão. É sempre válido lembrar que uma pessoa não se resume às fotos que compartilha ou as piadas que conta, que cada um luta uma batalha individual e profunda que poucas pessoas conseguem enxergar e que, se não tem nada de bom a acrescentar, é melhor que não se diga nada que possa atrapalhar.

Conviver com quem tem esse diagnóstico é uma montanha-russa tanto quanto para quem vivencia na mente seus efeitos e, por isso, é necessário que todos os envolvidos tenham cuidado com o seu psicológico, procurando apoio profissional para os momentos mais difíceis, para evitar que a crise do outro seja seu gatilho tanto quanto para tornar-se um gatilho inconsciente para quem se ama. É necessário que ambos – quem sofre e quem acompanha o sofrimento – compreender que ser produtivo e intenso não faz a depressão sumir, do mesmo jeito que ter um dia ruim ou dificuldade para acordar vez ou outra não te faz ser depressivo. O diagnóstico de saúde mental está na importância que você dá para cada vivência e, principalmente, na maneira que você encontra para se defender e sair de onde está.

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